quarta-feira

AO PRIMEIRO TOQUE


Se a vida é um jogo então eu quero jogar.
Vou apostar num 4-4-2, porque dizem os entendidos, é uma táctica normalmente ganhadora, ou pelo menos uma das que mais hipóteses oferece para chegar lá á frente, não baixando a guarda, cá atrás.
Ora quem não entra nestes esquemas tácticos é o Guarda-Redes, não quer isso dizer que seja esquecido, mas não entra. Nem no 4-4-3 nem no 4-2-4 nem no 3-4-3, nem aqui, neste 4-4-2.
Aqui são só dez.
Quatro defesas, quatro médios, dois avançados.
Dez contos, dez crónicas, dez histórias. Começou o jogo. Vamos a eles.

segunda-feira

DOIS E DOIS SÃO...


Quatro jogos e muitos dias depois, ele sentiu, finalmente, o sabor que tem a alegria quando a conquistamos.
Quatro derrotas passadas e a vitória hoje. De manhã e à noite.
Aqueles minutos passaram, velozes como um ciclone, intensos como um sol, felizes momentos, de correria, gritos, toques para o lado, e o golo…
Um e outro, e mais outro, e um olhar disfarçado e fugaz, e sim, estávamos a olhar, vimos os golos.
E ele correu, de braços abertos, e correu, de manhã.
Pela noite foi ver os grandes, no estádio grande, foi com os grandes.
Entrou pelo camarote, exclamou quando viu a comida, os sofás, a televisão, e de imediato abriu a porta de correr, em vidro.
Desceu meia-dúzia de degraus e encostou-se ao varão.
Ambos eram da mesma altura.
Entre o varão e o betão um rasgo longitudinal, pontuado por dois olhos escuros, bonitos, deliciados.
Foi assim, desde que chegou, até que partiu.
Só se desencostou do varão por quatro vezes.
Duas para gritar golo, as mesmas que tinha gritado de manhã, quando os marcou e outras duas para pedir uma “sandes” de lombo, e claro, um ice-t de limão.

domingo

LEVA-ME O SONHO PARA ONDE ME QUER LEVAR


Quando era míudo e entrava no campinho para jogar à bola levava comigo um sonho.
Um sonho, que não era igual ao dos míudos, que um dia jogaram à bola comigo.
O meu era jogar num campo relvado. Só isso.
Havia tão poucos…
Tínhamos sapatilhas, bolas velhas, joelhos esmurrados, nas pedras e no alcatrão, na terra e na lama, mas não tínhamos um campo relvado. Nem lhe sentiamos o cheiro.
A primeira vez que joguei num campo relvado, e logo eu que passei ao lado de uma grande carreira, aliás passou ela por mim, mas eu não estava na paragem, a primeira vez que pisei um relvado foi o do antigo Estádio da Luz. Estava fria essa noite.
Jogava-se um Benfica - Sacavenense em Reservas.
Eles tinha uma mão cheia de desconhecidos, Paneira, José Carlos, Portela, Delgado, uma mão cheia de desconhecidos, que pouco depois saltavam para a primeira linha.
Mas há coisas inexplicáveis.
Eu, que nunca tinha jogado num campo relvado, estava finalmente à porta do meu sonho de pequeno, eu que, tarde demais, já era grande, concretizava o meu sunho.
Eu, sem sapatilhas, mas com umas botas novas, eu, sem uma bola velha, mas com uma “Tango” a estrear. Eu, sem joelhos esmurrados que a relva não esfola.
O Mister Meirim, o velho lobo Joaquim Meirim, mandou-me para o banco. Pouco me importei.
Não me importei nada mesmo.
Passei longos minutos aos intervalo, a fazer de guarda-redes, porque o que eu gostava mesmo era de me atirar para a relva.
As gigantescas bancadas da Luz estavam vazias. Uma quarta-feira à noite, um jogo de reservas e eu nas asas do meu sonho.
Agora, quase vinte anos depois volto a sonhar. Sonho três vezes por semana, sempre que o vou buscar ao treino e ele me invade o carro, com pedaços de lama a caírem das botas, com as meias manchadas de verde escuro, caneleiras sujas de alegria, mas sobretudo, leva-me o sonho para onde me quer levar, com o intenso cheiro a relva que ele exala, em boa-hora.
Leva-me o sonho.

À FRENTE OU ATRÁS...




Todos os dias, quase todos os dias, são passados a correr, mesmo que muito devagar rolem hora após hora.
Chegámos a casa.
Falta pouco mais de cinco minutos para o treino começar.
Um minuto para despir. Um minuto para vestir. Um minuto para nos fazermos a estrada. Um minuto para o caminho. E por incrível que pareça, ainda nos sobrava um minuto, para os últimos conselhos, já no campo da bola. Uma breve conversa sorridente, como sempre.
Entrámos em casa a correr, e saímos a correr.
Por breves instantes o meu olhar prende-se abaixo da cintura dele.
Um alto, bem alto, volumoso, estranho, surpreendente alto entre as pernas.
Um olhar envergonhado, um sorriso comprometido e um gesto inevitável.
De dentro dos calções retirou um par de luvas de guarda-redes.
Pediu desculpa.
Sorri.
Embora, que já estamos atrasados.
Se queres jogar à baliza joga, mas não escondas novamente as luvas, porque voarás, para onde tiveres que voar.

quarta-feira

O MEU MELHOR AMIGO...


QUEM É O MELHOR AMIGO DO GUARDA-REDES?
É O POSTE.
DISSE ELE, A RIR...

terça-feira

A REDE


Era uma dor que vinha da "alma".
Estranha dor, sobejamente conhecida. Sentida.
Dias-a-fio. Mais e mais. Cada dia, cada vez mais, todos os dias, dias-a-fio.
Dava a vida ideia de andar em provocadoras reviengas. Deliberadas, obscenas. Um túnel.
Sorriso de desdem.
E a gente na bancada, alta, cachecóis invisíveis, a gente aplaudia, em silêncio.
E a vida é cá um artista...
E não que o Outono tivesse obrigatoriamente de lhe roubar algum calor ao sorriso, nem sequer torná-lo mais baço, com a queda das folhas que, baloiçando lentamente, jamais tocarão o chão.
Meteu-se no carro, arrancou, como que no início de uma longa e carinhosa viagem.
Cinco minutos depois, já do outro lado da rede, encostado a essa rede que dividia o lado de cá do lado de lá e que nunca lá esteve, olhou.
Os dias-a-fio...
O dia fez-se noite. A dor paixão. O sorriso e o mundo. Parados, a olhar.
Que bom quando o mundo pára!

domingo

VOEI SÓ POR TI


SÓ DOIS POSTES MAL ILUMINADOS. A NOITE RECORTADA COM ESSA LUZ, TÃO TÉNUE E TÃO INTENSA.
OS HOMENS, EM NÚMERO MAIOR.
MISTURAVAM-SE COM AS MULHERES, E RECORTAVA-OS, A ELES E A ELAS A LUZ DE DOIS POSTES MAL ILUMINADOS. SÓ ISSO.
PERCEBEU ENTÃO, QUE A LUZ ÁS VEZES TÉNUE, PODE, AO MESMO TEMPO SER TÃO INTENSA.
QUEIRAM OS NOSSOS OLHOS VÊ-LA.
REPAROU NELE, PORQUE TINHA QUE REPARAR. OLHOU-O COM TANTA TERNURA, SÓZINHO, RECORTADO PELA NOITE.
ENTRE ELES, HOMENS E AS MULHERES, MISTURADOS. RECORTADOS, PELA LUZ, PELA NOITE.
ELE OLHOU-O, COMO POR UM ACASO. ACENOU. PAPÁ, FICA A VER-ME. ELE FICOU.
HÁ TANTO TEMPO QUE LÁ ESTAVA, MAS SÓ NAQUELE MOMENTO, NAQUELE INSTANTE TÃO MÁGICO SE DEU A VER.
COMO NUM ESTALAR DE DEDOS, JÁ UM DOS OUTROS ENTRAVA NA ÁREA, TIROU UM, DEPOIS OUTRO, DO CAMINHO.
PAPÁ FICA A VER-ME…
VIROU-SE, DEU DOIS PASSOS CAMBALEANTES, DE BRAÇOS ABERTOS, A BALIZA ERA CADA VEZ MAIS PEQUENA, PARA O UM, DOS OUTROS.
AGORA. REMATOU, E ELE VOOU…
VISTE PAPÁ…
VI, FOI BEM, BOA DEFESA…VÁ AGORA LEVANTA-TE…

UM SÓ "DEZ"



HAVIA UMA MEIA-DÚZIA DE NÚMEROS DEZ. ESTOU CERTO QUE ERAM MAIS, MAS PELO MENOS DEZ CONTEI-OS EU.
HAVIA O DEZ DO BENFICA, O DEZ DO SPORTING, O DEZ DO REAL, O DEZ.
E HAVIA AQUELE DEZ. PORQUE UM DEZ ,MEUS AMORES, UM DEZ, É SEMPRE UM DEZ. UM NÚMERO ÚNICO. DOIS NÚMEROS. UM E ZERO. DEZ.
QUASE TODOS VESTIAM COMO OS DEZ DAS SUAS VIDAS PEQUENAS. MAS HAVIA AQUELE DEZ.
SIGA-ME COM O OLHAR. DE BAIXO PARA CIMA. LENTAMENTE.
AS BOTAS PRETAS COM UM DESENHO EM VERMELHO. JÁ GASTAS.
OS CALÇÕES DO ATHLETIC, E QUE NINGUÉM OLHE EM RISTE, COMO UMA ENTRADA MAIS DURA, NUM LANCE MAIS APERTADO,
PORQUE AQUELE DEZ NUNCA QUIS SABER DA LUTA DO POVO BASCO.
TALVEZ UM DIA QUEIRA. NÃO SEI. TALVEZ…
OS CALÇÕES DO ATHLETIC DE BILBAO ERAM UM DOS MAIS VALIOSOS PRESENTES QUE O AVÔ ALGUM DIA LHE TINHA OFERECIDO.
NEM QUE NÃO COMBINASSEM COM AS MEIAS, PUXADAS ATÉ AOS JOELHOS, A ESCONDER UM PAR DE CANELEIRAS. PERNAS PEQUENAS. LINDAS.
ERAM VERMELHAS, AS MEIAS. NÃO COMBINAVAM, MAS ERA COMO SE COMBINASSEM.
SE CONTINUAR A SEGUIR-ME COM O OLHAR, DE BAIXO PARA CIMA, LENTAMENTE, REPARE AGORA…
A CAMISOLA, DAQUELE DEZ, QUE NUNCA SE DEBRUÇOU SOBRE A POLÍTICA, OS REGIONALISMOS E OS FUNDAMENTALISMOS, A CAMISOLA CHEGAVA A PARECER UM SACRILÉGIO. BLAU GRANA.
OS CALÇÕES DE BILBAO, A CAMISOLA DA CATALUNHA E O SONHO NA PONTA DAS CHUTEIRAS.

quarta-feira

DEZ CONTOS DE BOLA OU 4-4-2


A DEFESA

Quatro mais quatro são oito, oito mais dois são dez. E assim nasce aqui o 4-4-2.
É fazer-lhe as contas.
E dez são as histórias, em ponto muito pequeno.
Dez são os contos de bola. O guarda-redes não entra.
Está dado o pontapé de saída.

E como corro. Corro desalmadamente.
Olhos sempre postos no outro lado do campo, da vida, da terra, do céu, da esperança, do sorriso. E corro, desalmadamente.

Olho o sol, redondo, saltitante, enquanto corro.
Numa direcção que nunca quis tomar.
Rasteira. Queda. Levantar. Sacudir. Voltar.
Jogo veloz, doce, duro.

Dei o pontapé de saída, mas mal começou, logo pedi a substituição. Estavam esgotadas.

E assim, corro. Corro desalmadamente. Olhos sempre postos no outro lado do campo, sem nunca os tirar do sol, redondo, saltitante.
Foi golo, gritaram. Foi golo…
Que grande golo!